terça-feira, 28 de setembro de 2010

Haptonomia: contato com o bebê ainda no ventre

Haptonimia
A Haptonomia é uma técnica pouquíssimo conhecida no Brasil. A palavra Hapto tem origem grega e  siginifica “fazer contato tátil, eu me junto ao outro, eu estabeleço relação (por meio do toque) com o outro com a intenção de fazer um todo, de confirmar a outra pessoa em sua existência”.   O termo haptonomia foi utilizado pelo holandês Frans Veldman, há cerca de trinta anos, para definir o que ele chama de Ciência da Afetividade, o conjunto de leis que regem o campo do nosso coração, nossos sentimentos. A base desta ciência é o princípio de que o ser humano tem o direito primordial de afirmação de sua existência e de confirmação da afetividade de seu ser desde o momento de sua concepção.
A Haptonomia não é uma técnica terapêutica restrita apenas à gestação, mas seu principal trabalho acontece durante a gestação e até dois anos após o nascimento do bebê. O acompanhamento haptonômico pré, peri e pós natal dos pais e do bebê promove o desenvolvimento de vínculos afetivos entre os pais e a criança e os ajuda a estabelecer uma comunicação amorosa com o bebê desde o período uterino. Esse contato precoce também ajuda a criar uma situação favorável para uma experiência positiva de nascimento e pós-parto para o bebê e seus pais. A relação afetiva estabelecida durante este acompanhamento, entre pai, mãe e a criança, promove o desenvolvimento do senso de paternidade e maternidade e da responsabilidade que os pais têm em relação à individualidade de seu filho enquanto ser humano. A haptonomia ajudará os pais a desenvolverem uma relação com a criança de forma a estimular seu desenvolvimento físico, psíquico e emocional, encorajando sua autonomia.
A comunicação com o bebê durante a gestação, nesta técnica, se dá por meio do toque. Não simplesmente um toque qualquer, mas um toque dirigido intencionalmente ao bebê, no ventre da mãe. A intenção do trabalho não é apenas preparar para o parto, mas preparar os pais para uma recepção afetiva do bebê. A cada encontro com o haptoterapeuta, os pais descobrem como interagir com o bebê através de um contato de toque afetivo-confirmativo, com uma intenção amorosa. Pai e mãe realizam toques de pressão leve sobre o abdômen da gestante, aguardando a resposta do bebê, sua movimentação. O profissional que os acompanha os estimulará a, através do pensamento e do posicionamento do toque, convidar amorosamente o bebê a realizar determinados movimentos e a observarem as respostas dos bebê. Conforme a sintonia entre os movimentos do bebê e os toques dos pais vai se aprofundando, o vínculo afetivo se torna mais forte, assim como a percepção da existência do bebê, de sua sensibilidade. Mais do que pensar no diálogo com o bebê neste momento, o que importa é sentir, é na sensação e no sentimento que a comunicação efetivamente se estabelece.
Esta é uma técnica que auxilia muito na integração da tríade pai-mãe-bebê, especialmente para o pai. Através do contato frequente com o bebê por meio dos toques e da comunicação estabelecida desta forma, o pai se sente mais incluído no processo de gestação. Para a mulher, todo este trabalho pré-natal será especialmente útil no momento do parto, pois a consciência da presença e movimentação do bebê se tornará mais aguçada.
O acompanhamento haptonômico, geralmente, tem início quando surgem os primeiros movimentos do bebê perceptíveis pela mãe, entre 18 e 20 semanas de gestação. No Brasil, há pouquíssimas pessoas com a formação nesta técnica. No exterior, especialmente na Holanda e França, é comum encontrar profissionais da enfermagem, obstetrícia, psicologia e medicina com esta formação, utilizando a técnica em seus consultórios e nas maternidades.



segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Como a voz de mamãe

Para reforçarem os laços com a figura materna, os bebês choram reproduzindo o jeito de falar e o sotaque de sua mãe – que eles ouvem desde que estão no útero

Laura Ming

Conversa de amor
Ao chorar, o bebê não apenas reclama: ele expressa carinho

Inúmeras pesquisas são feitas para entender como os sentidos do bebê se desenvolvem no útero e atuam sobre sua percepção antes do nascimento. Já se sabe que, nas fases finais da gestação, as emoções da mãe – como ansiedade, tensão e medo – de alguma forma chegam aos bebês. Eles também adquirem sensibilidade à luz. Os recém-nascidos têm memória de sua vida uterina. Agora, um grupo de pesquisadores alemães do Instituto Max Planck e da Universidade de Würzburg deu mais um passo para desvendar a vida antes do parto. Ao analisarem o choro de sessenta recém-nascidos com idade entre 2 e 5 dias, eles perceberam que os bebês nessa fase já têm sotaque. A entonação do choro de bebês franceses termina com um som mais agudo, enquanto nos bebês alemães esse som é mais grave, acompanhando as características fonéticas dos respectivos idiomas. Como já se tem conhecimento de que os bebês podem ouvir a voz e as conversas da mãe quando ainda estão no útero, os pesquisadores concluíram que eles procuram reproduzir esses mesmos sons maternos nos primeiros dias depois de nascer. Essa seria uma ação instintiva, segundo os cientistas, para estabelecer laços de afeto com a mãe. "Os bebês conseguem ouvir a partir da vigésima semana de gestação e, como a voz que mais ouvem é a da mãe, faz sentido que tentem reproduzir esse som", explica o obstetra Eduardo Zlotnik, do Hospital Albert Einstein, de São Paulo.
O estudo dos pesquisadores alemães põe por terra a antiga tese segundo a qual o som do choro do bebê nos primeiros dias de vida está relacionado apenas às suas necessidades, expressando principalmente fome e dor. Muitas mães, além dos pediatras, conseguem identificar o que a criança está pedindo pelo tipo de choro e expressão facial. Agora, sabe-se que, além disso, o choro carrega um forte vínculo com a memória dos últimos períodos de gestação. Através dele, o bebê procura reforçar sua relação com a mãe, imitando sua voz. Ainda não se conhece a exata percepção que os bebês têm dos sons enquanto estão no útero. Mas é possível afirmar que a nitidez dos ruídos é prejudicada pelo líquido amniótico, em que estão imersos, que acaba funcionando como uma barreira para as ondas sonoras. Os tons mais agudos são parcialmente bloqueados, enquanto os graves chegam aos ouvidos do bebê com mais facilidade. Algo parecido com o que acontece quando alguém mergulhado numa piscina procura distinguir os sons de fora dela. Mas a voz da mãe, apesar de aguda, como costumam ser as vozes femininas, é facilmente captada pelo bebê. Depois do parto, ele consegue reconhecer a mãe pela voz.
Corbis/Latinstock
Som ampliado
Música para acalmar o bebê no útero: segundo os médicos, é mais eficaz conversar com ele

Estudos anteriores relacionando os bebês no útero aos ruídos externos comprovam que eles têm memória sonora. Numa pesquisa feita em 2001 por cientistas da Universidade de Leicester, na Inglaterra, grávidas ouviram uma única música durante os três últimos meses de gestação, diversas vezes. Os cientistas perceberam que os bebês conseguiam reconhecer e preferiam essas canções até depois de 1 ano de idade. "Os sons que os bebês escutam durante a gestação tendem a acalmá-los no futuro", explica Adolfo Liao, professor de ginecologia e obstetrícia da Universidade de São Paulo. Muitas mães, buscando tranquilizar o bebê, ouvem música clássica. Algumas chegam a colocar fones de ouvido na barriga para potencializar o efeito calmante da música. "Digo para meus pacientes que melhor do que ouvir música é conversar com o bebê, uma vez que a voz da mãe remete a sensações de conforto e proteção", afirma Adolfo Liao.
Já a ideia de que se pode doutrinar o gosto musical de uma criança enquanto ela está no útero é falsa. Pesquisas nesse sentido foram realizadas e não se conseguiu provar que ouvir axé music ou Beethoven determine as preferências da criança no futuro. "O bebê provavelmente vai se lembrar do que escutou, mas o gosto será determinado pelo meio, pelos outros estímulos que terá em vida", afirma o obstetra Eduardo Zlotnik. O que há de concreto é que os bebês se habituam à voz materna e a usam como a primeira referência sonora na vida.

Os sons que chegam ao feto

• Os bebês têm memória musical. Até 1 ano de idade, conseguem reconhecer as músicas que ouviam após a 28ª semana de gestação
• Quando a grávida coloca fones de ouvido na barriga, apenas aumenta o volume do som ouvido pelo bebê. Não há influência em seu comportamento ou gosto musical futuro
• O líquido uterino em que o bebê está imerso bloqueia alguns sons. As frequências graves são mais bem percebidas que as agudas

FONTE:

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Filme raro exibe Shantala e a massagem para bebês




       Contato maravilhoso!!!
       As palavras não fazem falta alguma...
       é preciso aprender a "ouvir o silêncio"...





sábado, 11 de setembro de 2010

Como os pais lidam com a autonomia na relação com os filhos


Educar é um ato de autoeducação!
Esse é o viés na relação de pais e filhos, que torna a educação dos filhos um trabalho de autodesenvolvimento para os pais.
Inicialmente a criança entra em contato com o mundo através da imitação, ela absorve o mundo imitando-o, até os nove anos. Não se trata de uma imitação só pelo modelo em si, no sentido de reprodução; imitar tem um sentido muito mais profundo para a criança. Tem a ver com a verdade...
A verdade é o que ela vê, ouve, sente no seu corpo, experimenta...
A maravilhosa simplicidade e pureza infantil faz com que ela  tome para si os modelos do seu entorno, pois para ela tais modelos representam o referencial da verdade.
Então, se desejamos ensinar uma criança a lavar as mãos, apenas precisamos lavar as nossas para que ela veja. Falar como se lava as mãos é mais uma necessidade do adulto.
Falar, falar e falar...
Por isso é muito comum esse conflito na educação dos filhos, pois, às vezes, há uma incoerência entre aquilo que falamos, aquilo que fazemos com aquilo em que acreditamos (a  verdade).
A relação dos pais com a autonomia dos filhos fica impactada por todas estas questões. Punição, controle, falta de confiança, insegurança são alguns dos elementos que compõem a dinâmica familiar da atualidade.
Segue abaixo a divulgação de uma pesquisa que trouxe em números as dificuldades entre a teoria e a prática na relação de pais e filhos.

Rosângele Monteiro



G_Educacao.jpg






quinta-feira, 9 de setembro de 2010

 

Cuidando de crianças em creches 


     A creche tem um lugar relevante no desenvolvimento da subjetividade (Flach, 2009). 
     Educar é subjetivar.   
     Subjetivar é ser parte na construção da criança como sujeito.     
     Ser parte nesta construção confere valor à “proteção física, aconchego, afeto, comunicação, jeito de falar, entonação e ritmo
de voz, etc.” que o educador emprega no contato com a criança (Moita, 1992).      
    Esses exemplos referem-se ao exercício da função cuidadora do educador. A maneira como ele emprega a si mesmo nas tarefas de cuidados, inscrevem-no no processo de subjetivação da criança.
    O cuidado produz marcas simbólicas, é um cuidado subjetivante (Flach, 2009).
    A maternagem precisa ser realizada independentemente de ser com o educador, cuidador, a mãe ou seu responsável; segundo Penot (1997) a falta de estabelecimento do laço entre a criança e seu cuidador pode impedir a constituição psíquica do sujeito (Flach, 2009).
   Dependendo de como a criança foi cuidada, haverá uma influência na criação dos seus modelos internos de representação, envolvendo a auto-estima, os sentimentos de segurança e independência. Assim, a maneira como a criança é tocada, a existência de contato visual direto com ela, a preocupação em mantê-la segura e protegida, dizem respeito à função cuidadora do educador que influencia profundamente a formação afetiva da criança.

Funções cuidadoras:

v   Cuidado, proteção e segurança.
v   Capacidade de conter a atividade física e emocional da criança, mais especialmente em relação ao manejo da agressão.
v   Capacidade de fornecer bem-estar corporal com experiências de prazer, como o banho.
v   Capacidade de modular estímulos externos: barulho, luz, tranquilidade para dormir, etc.
v  Capacidade empática: identificar-se com a criança, colocando-se no lugar dela para poder sentir o que ela precisa e acolher seus afetos positivos e negativos.
v   Capacidade resiliente: poder conter e oferecer à criança o encorajamento à tolerância de seus afetos negativos, como a frustração, a angústia e a raiva. 
v   Capacidade de aceitar a individualidade da criança de forma incondicional, mas também poder estimulá-la em suas potencialidades rumo à superação de seus limites e dificuldades.
v   Poder nomear sentimentos e situações para despertar a consciência da criança (você está com sono, está com raiva, está feliz...).
v    Poder olhar com positividade para as manifestações e comportamentos da criança (por exemplo, dar significado ao gesto da criança em tocar o rosto do educador como demonstração de carinho, curiosidade e não de agressão).
v Poder oferecer e respeitar a rotina através da alimentação, sono, higiene e outros, estabelecendo regras e limites pertinentes à sua idade e individualidade.
v      Poder respeitar e oferecer a ordem de papéis (adulto/criança, masculino/feminino, etc.).

A função cuidadora do educador, ou até a maternagem em alguns casos, integra profissionalismo, responsabilidade, comprometimento, características individuais, autodesenvolvimento, autoeducação, dedicação e porque não dizer amor... amor ao que faz, amor às crianças e à infância.


Rosângele Monteiro Prado

Texto integrante da Apostila do Treinamento Vivencial para Educadores Infantis da Pefeitura de Vinhedo (2010)





terça-feira, 7 de setembro de 2010

"Quando o pai fica com depressão pós-parto"


pai com depressão
Associar a depressão pós-parto a uma recém-mãe é comum, no entanto, a depressão pós-parto não é uma situação exclusivamente feminina, o pai também pode sofrer desta condição. Um estudo feito em 200 casos revelou que 3% dos pais demonstravam sinais de depressão pós-parto depois do nascimento do bebé. O mesmo estudo revelou também que aproximadamente 10% das mães também experienciam sintomas de depressão pós-parto.

Um bebé traz novas responsabilidades e a vida não fica de todo mais fácil. Depois da excitação inicial do parto e da intensa sensação de ser pai vêm as noites sem dormir, as mudanças no estilo de vida, a incapacidade de amamentar, o sentir que ser pai é para sempre; tudo isto pode ser aterrador e um risco para desenvolver uma depressão pós-parto.

Como afecta o bebé

Estudos feitos recentemente revelam que especialmente os bebés do sexo masculino são os mais afectados por um pai com depressão pós-parto: evidenciando mais problemas comportamentais e emocionais nos primeiros anos de vida do que bebés do sexo feminino ou do que bebés que não tenham um pai com pós-depressão. O envolvimento de um pai com depressão pós-parto pode ser diferente do envolvimento de um pai que não sofra desta condição.

Sintomas da depressão

A mudança que o novo bebé traz ao dia-a-dia pode muitas vezes camuflar o que podem ser sintomas de depressão pós-parto. O pai sente a obrigação de fazer com que a recém-mãe se sinta bem e em recuperação, bem como ter a capacidade de lidar com as mudanças que um recém-nascido traz à sua vida.
O pai impõe a si próprio o padrão de ser um super-homem e um super marido. Ajustar-se à nova vida e assumir as responsabilidades de ter um filho(a) no mundo não é tarefa fácil para ninguém, quer seja homem ou mulher. No entanto, assumir medos e receios não é algo muito comum na cabeça dos homens, sendo fácil não notar os primeiros sinais da depressão pós-parto, pois a tendência natural de um homem é ignorar ou não dar importância a pensamentos ou sentimentos que podem revelar esta condição.
Um pai que luta para estabelecer um laço emocional com o seu recém-nascido sente-se também desligado da sua mulher e até da vida, seguindo-se a sensação de que não é “merecedor” de ser pai e procurando justificação para este tipo de sentimentos. Ao mesmo tempo, surge uma luta para suprimir todos os sentimentos negativos devido ao embaraço, medo e frustração que lhe provocam.
Qualquer pessoa que experiencie este tipo de sentimentos deve dirigir-se ao seu médico, pois em casos extremos podem surgir o suicídio ou mesmo a tentativa de homicídio. No entanto, é importante saber distinguir entre o cansaço devido à privação de sono e os sintomas de uma depressão pós-parto.

Os sintomas mais comuns são:

  • Pensamentos obsessivos
  • Dor no peito ou dificuldade em respirar
  • Sentimentos de impotência ou de inadequação
  • Incapacidade de se ligar emocionalmente ao bebé
  • Incapacidade de manter os padrões de sono
  • Pensamentos suicidas

Existem algumas circunstâncias que tornam um homem numa pessoa de maior risco de sofrer uma depressão pós-parto:

  • Historial de depressão
  • Um nível de stress diário muito elevado
  • Trauma ou dificuldade durante a gravidez
  • Problemas financeiros
  • Falta de sono
  • Mãe com depressão pós-parto
  • Pouco ou nenhum apoio social

Procurar e encontrar ajuda

Isto é uma doença que tem cura e conseguir ultrapassar a depressão pós-parto é possível para um pai. Mais vale prevenir… já o ditado o diz. Se sentir que o seu parceiro pode estar a passar por uma depressão, é importante que o primeiro passo seja ajudá-lo a superar esta doença, levando-o a procurar ajuda. Conversar com o seu parceiro sobre o assunto de uma forma compreensiva e aberta, apoiando-o e encorajando-o a conversar com um médico é um excelente passo. Por vezes a justificação de um médico de que esta condição não é uma loucura - mas sim algo de comum e tratável -, é um grande passo para a cura. O apoio emocional da família, apoio psicológico e uma medicação apropriada é usualmente o melhor tratamento para superar esta condição.

Para ambos os pais evitarem uma depressão pós-parto

Para ambos os pais é importante aliviarem o stress que surge logo que o recém-nascido entra nas suas vidas. Para tal é boa ideia:
  • Terem um plano financeiro e um orçamento preparado que comporte as despesas de um bebé.
  • Mantenham os canais de comunicação abertos: partilhem um com o outro sentimentos, medos e anseios relativos a esta nova fase da vida.
  • Criem formas de partilhar as obrigações; conversem e decidam por ex: o pai pode amamentar o bebé durante a noite com biberão, em vez de ser sempre a mãe a fazê-lo.
  • Contratem uma ama ou peçam a um amigo que tome conta do bebé pelos menos uma vez por semana, saiam e vão divertir-se sozinhos; e nada de conversar sobre o bebé, apenas conversa de adultos!
  • Façam exercício regularmente e tenham uma alimentação saudável.
  • Conversem com um psicólogo ou psiquiatra nem que seja sobre os anseios que podem estar a sentir nesta fase conturbada.





(Áudio) Reportagem da CBN sobre Depressão Pós-Parto Masculina (19/05/2010)




domingo, 5 de setembro de 2010

"Só alimentar não basta..." - Suzana Herculano-Houzel , neurocientista


Interessado em entender o que é a figura da mãe para um bebê, no final dos anos 1950 o psicólogo Harry Harlow separou bebês macacos de suas mães logo após o nascimento e deu-lhes todos os cuidados médicos e nutrição. Mas os animais, criados em isolamento, morriam.

Notando o apego que os filhotes criavam aos panos que forravam a gaiola e às protuberâncias metálicas de algumas delas, Harlow criou um experimento que fez história: passou a criar os bebês macacos na presença de um manequim de arame, aquecido e com rosto, que oferecia uma mamadeira, e de outro, igualmente aquecido e com rosto, que não provia alimento, mas era recoberto de toalha macia.

Resultado: os animais passavam o tempo necessário para se alimentar na “mãe nutridora” e prontamente corriam para a “mãe macia”.

Que, veja bem, não dava carinho - mas aceitava as carícias do filhote, que passava boa parte do dia explorando seu “rosto” e o tecido de seu “corpo”. Era para ela, e não para a “mãe nutridora”, que os animais corriam quando amedrontados; era ela, e não a outra, cuja presença tornava os animais seguros para brincar com outros macacos.

O experimento de Harlow soa cruel hoje, mas, na época, apenas repetia a norma de tantos orfanatos e hospitais, seguida por muitas mães, de deixar bebês sozinhos em seus leitos, segurando-os somente para alimentá-los.

Nas instituições, mesmo se criados sob condições médicas perfeitamente controladas, os bebês morriam - como os filhotes sem mãe-manequim de Harlow.

Somente nos anos 1980, quando a norte-americana Tiffany Field e sua equipe começaram a massagear sistematicamente bebês prematuros em unidades neonatais, com resultados maravilhosos, constatou-se o maior dos poderes da mãe: dar carinho a seus filhotes.

Com um sistema de nervos especializados em detectar carícias - a demonstração mais inequívoca de não estar sozinho no mundo-, o cérebro do bebê dá mais valor a quem o embala e aconchega do que a quem o alimenta.

No Canadá, o neurocientista Michael Meaney hoje explica por que: o cérebro de quem recebe carinhos maternos, muda sua resposta ao estresse pelo resto da vida e gera um indivíduo mais tranquilo, saudável - e propenso a passar o carinho adiante.
Pouco importa se a mãe que acaricia é biológica ou adotiva. Se você recebeu carinho, você teve mãe - e seu cérebro se lembrará disso (e dela) pelo resto da vida.


SUZANA HERCULANO-HOUZEL, neurocientista, é professora da UFRJ e autora do livro “Pílulas de Neurociência para uma Vida Melhor” (ed. Sextante) e do blog “A Neurocientista de Plantão”


sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Relacionamento Pais - Bebê

Rosângele Monteiro Prado
Psicóloga Perinatal

     A Psicologia considera bebês as crianças na faixa etária que compreende dos zero aos três anos completos.
Essa fase é de suma importância no desenvolvimento da criança do ponto de vista emocional, pois é nesta etapa da vida onde são vividas as experiências mais intensas, correspondendo então à primeira fase fundamental para a constituição do ser humano.
   Mas é durante a gestação que a vida emocional do bebê tem suas primeiras experiências. Vários estudos científicos concluíram que há transmissão das emoções vividas pela mãe ao bebê através de substâncias químicas. Além disso, o bebê também expressa suas próprias reações quando estimulado ainda no ventre materno, conforme constatação de pesquisas utilizando o ultra-som.
   É com o nascimento que o bebê passa a ter uma vida pautada nas experiências físicas que então se intensificam. Não há uma vida corpórea sem uma vida de emoções.
   Mas como é a vida emocional dos bebês?
   Se considerarmos que o bebê experimenta o mundo através das sensações e funções físicas, como fome/saciedade, sono/vigília, dor/bem-estar, conforto/desconforto, então podemos concluir que ele passa a ter uma referência do mundo que o rodeia através dos pais, principalmente, e de seus cuidadores.
   Assim podemos entender como as relações pais/bebês devem ser consideradas como fundamentais para que o bebê tenha um desenvolvimento saudável e uma vida harmônica.
   Como em todo relacionamento, os laços afetivos que regem as relações pais-bebê interferem, e influenciam, em todas as partes dessa tríade. Há um ‘’fluxo’’ de afetividade que passa entre pai, mãe e bebê, num movimento ondular. Como o mar que invade a areia e deixa suas marcas por onde passa, para depois recolher-se trazendo consigo os vestígios e as impressões de onde esteve para então voltar novamente a areia e repetir o movimento, mas o movimento não será o mesmo, pois o mar conterá os elementos dos movimentos anteriores.
   Essa imagem nos traz a necessidade de considerarmos que o universo de relações que o bebê estabelece com a família (pai, mãe, irmãos, etc.) pode gerar uma demanda emocional que se evidencia através de sintomas físicos ou de sintomas comportamentais.
   Quais os sintomas que podem nos mostrar o sofrimento emocional do bebê, indicando que há necessidade de um cuidado especial?
- Doenças recorrentes
- Dificuldades freqüentes para dormir
- Dorme pouco ou muito
- O bebê não brinca
- O momento da alimentação é de difícil manejo 
- Isolamento
- Variações de temperatura sem diagnóstico
- Dificuldades em fixar o olhar
- Dificuldades de interação
- Sintomas depressivos
- Comportamentos estereotipados
- Crises no comportamento  

   Os pais também expressam que precisam de uma atenção especifica, já que eles também são tomados pelas emoções do relacionamento com seus bebês. Existem algumas situações especiais onde essa necessidade pode ser sentida, á notar:
- Depressão pós-parto 
- Patologias psíquicas de um dos pais
- Dificuldades ou negligência em oferecer cuidado ao bebê
- Gravidez não planejada conscientemente
- Dificuldades específicas de relacionamento com o bebê

   O cuidado especial a que fazemos referência é uma modalidade de acompanhamento terapêutico específico onde o foco do trabalho é a relação pais-bebê.
Objetivo: Assegurar condições favoráveis à boa maternagem/paternagem e ao desenvolvimento saudável do bebê. Em outras palavras buscamos dar acolhimento aos pais e ao bebê no que se refere ao universo de seus sentimentos, auxiliando o bom desenvolvimento das relações familiares.
Prevenção: Facilmente nos deparamos com notícias, documentários e pesquisas que tratam da vida em família e do comportamento de crianças e adolescentes. O acolhimento da relação pais-bebê tem um caráter preventivo já que oferece um cuidado a criança na primeira fase da infância, promovendo um suporte emocional á família que poderá auxiliar em demandas afetivas e comportamentais futuras.
Brevidade: Os bebês são muito permeáveis ao trabalho terapêutico, tornando-o mais breve. Quando os pais são incluídos no acompanhamento há uma característica ímpar que é a atenção integral, e a isso os bebês são significativamente sensíveis. Simetricamente os pais são também beneficiados pelo trabalho e por seus resultados, e as transformações ambientais brevemente são observadas.



    “O amor que chega do ventre
     Traz consigo uma luz.
Uma luz quando se acende
Transforma e conduz.
A dor é um amor
Que ainda não foi vivido,
Mas que está pronto        
Para ser parido.
É só chegar, se aninhar
    E ter cantigas de ninar.
    Colo, calor  e voz a sussurrar
    E os dias vão construindo
    Um caminho para amar. ’’



Que o mundo possa olhar a infância e seus pais, tutelares do seu caminho, como uma jóia a ser lapidada, amorosamente acolhida e trabalhada.
  

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

A Psicologia Perinatal e a importância do cuidado à maternidade

        O curso de Formação do Instituto Gerar em Psicologia Perinatal transformou-se num fio condutor do trabalho de cuidado à maternidade que realizo, pois lhe doou um acréscimo, e foi cerzindo a compreensão à atuação acerca da relação central na vida de todos nós, a relação mãe-filho.
       A condição emocional do ser humano é construída sob a égide da maternidade, e a vivência possível para a dupla mãe-bebê, torna-se a célula mater, de onde provém o capítulo mais primitivo da nossa história.
       Antes mesmo da concepção, o desejo em maternar é uma presença, e a possibilidade de conceber realiza o desejo, ainda que o desejo não habite a consciência, ainda que o desejo seja um desconhecido. E mesmo quando o corpo não consente (numa alusão à Thérèse Bertherat) o desejo pode ser revelado, e ainda mais, ele pode ser perseguido. E até quando o desejo em maternar não habita parte alguma, ainda assim, o que está por trás, é a história pessoal atravessada pela experiência da maternagem recebida.
       A maternidade pode ser vista como a experiência centralizadora da condição humana, pelo simples fato de sermos, todos nós, filhos. Qualquer que tenha sido a vivência, todos nós fomos gerados por uma mulher-mãe.
       A Perinatalidade se propõe a lidar com o entorno da maternidade, e com a rica complexidade possível na teia de seus relacionamentos, desejos, fantasias e vivências. O cuidado que a Psicologia Perinatal oferece, congrega o caráter preventivo da relação que se estabelece com a maternidade, desde o desejo em ser pai e ser mãe, até a saúde emocional do bebê, e sua constituição como ser humano, passando seu olhar pelas relações familiares.
       Há, nessa intenção, um enriquecimento na vivência do psicólogo perinatal, pois somos convidados a “dançar” em ritmos outros, já que a interdisciplinaridade é uma característica da atuação profissional. Outros saberes tão importantes na assistência à maternidade, vindos de obstetras, pediatras, doulas, fonoaudiólogos, nutricionistas, enfermeiras, etc., nos convidam a compartilhar e a trocar, a crescer... Quando podemos desenvolver um olhar e um cuidado integrador, somos mais capazes de assistir e não simplesmente intervir.
       Aliás, intervenção é uma palavra que já me causava dúvida, não sentia que era essa a atuação mais benéfica, mais esperada pelas gestantes e mães, enfim. As reflexões apresentadas no curso me deram a convicção de que, intervir, é o pior que podemos fazer na assistência à maternidade. Intervenção é algo que vem de fora, no caso, vem daquele que assiste, mas se nos propomos a assistir então a intervenção é uma incoerência, um erro até, pois a intervenção pode ser traumática à maternagem, como pontuou Winnicott.
       O foco do meu trabalho sempre foi a maternidade, há 15 anos, ainda na faculdade, havia uma disciplina optativa denominada “Estágio Supervisionado em Atendimento à Gestante”, cuja orientadora era a Profª Maria Nurymar Brandão Benetti, e foi esta a primeira escolha que me colocou mais próxima do meu desejo em trabalhar com a maternidade. Hoje, tenho a oportunidade de reconduzir a trajetória do meu trabalho com o curso de Psicologia Perinatal, pois, simbolicamente, esse curso se “vestiu” de agulha, e foi me ajudando a cerzir muitos retalhos que havia recortado ao longo da minha história profissional e pessoal.
       Tive dois filhos, Giullio com 13 anos e Lorenzo com 4 anos, e realmente eles deram forma às experiências mais exuberantes da maternidade, da minha maternagem.
Foram dois partos muito marcantes.
O Giullio e eu vencemos o relógio e conseguimos viver um parto normal, mas com fórceps de alívio, necessário devido a circular de cordão que concorria com o tempo de duração do trabalho de parto, que foi induzido, pois eu não dilatava, nem tinha contrações, e já haviam se passado quatro dias da data provável. Conversei muito com ele, fui encorajando-o a nascer, e ele topou!
O Lorenzo nasceu de um parto que eu sempre sonhei: Duas horas da manhã, levantei para fazer xixi, coisa que eu nem fazia, vi que havia acontecido a descida do tampão. Fui pra sala com papel e caneta, constatei que estava em trabalho de parto, chamei meu marido, liguei para o médico – que estava dormindo, lógico, e pediu que esperasse, pois ainda demoraria um pouco. Mas uma hora depois eu já não conseguia falar, cheguei à maternidade às 6:00h com dilatação total, logo a bolsa rompeu, e o médico não chegava... O Lorenzo nasceu às 6:30h de parto normal, sem anestesia, e literalmente pari...
Com certeza, essas duas experiências foram as mais marcantes e emocionantes da minha vida. Eu me sentia eufórica e feliz! Minha relação com o parto sempre foi boa, meu desejo era parir, dar passagem, e a dor faz parte desse processo, minha felicidade foi maior que a dor, pois pude parir meus filhos, cada um com a sua história. Mas eu tenho é muito orgulho dessa parte da minha história, isso é verdade!
       Assim, todo esse entorno da minha opção por trabalhar com a maternidade, me trouxe até aqui, até o curso de Psicologia Perinatal, e também até a um espaço de trabalho onde o objetivo-sonho é assistir o materno-infantil de forma diferenciada, integral, humana.
       Acredito na ressonância que move pessoas e lugares cujos objetivos-sonhos aproxima, chama, atrai.
       As perspectivas trazem um frescor que anuncia algo novo, mas novo no sentido de renovação. Busquei, com este grupo do Instituto Gerar, estar com pessoas, cujas experiências me trariam reflexões, idéias, conhecimentos, exemplos e força, sim força para dar um salto... o salto que eu desejo.
       A relação mãe-bebê e o acolhimento ao início da vida são dois temas relevantes na minha trajetória profissional, e neste momento percebo estar diante deles de forma mais significativa.
       O vínculo afetivo mãe-bebê deixa suas marcas e constitui-se como referência na construção da vida psíquica do ser humano. Ele permanece assim, tanto que serve de base para o estabelecimento de outros vínculos que se formarão durante a vida do indivíduo.
       Ocorre que esse vínculo entre a mãe e o bebê é permeado pelas experiências anteriores de ambos. A mãe que, através da sua história de vida, da própria maternagem que recebeu, dos desejos conhecidos e desconhecidos, das vivências durante a gravidez e dos sentimentos em relação ao seu papel de mãe, chega ao encontro com seu bebê já com uma bagagem, e esta vai influenciar de forma determinante a qualidade da disponibilidade da mãe para o vínculo. O bebê também chega com a sua bagagenzinha, nela estão contidas as memórias pré-natais e as sensações experimentadas nesta fase, inclusive em relação ao próprio vínculo, pois este tem início, ainda que de forma muito rudimentar, já na fase pré-natal.
       É importante que essa consciência exista, uma vez que o parto é uma estação onde nunca se esteve antes, pois cada parto é único, e a bagagem trazida é o único elemento familiar. Podemos imaginar uma cena na qual a mãe é esperada no desembarque, após uma viagem, por alguém com uma plaquinha na mão cuja inscrição é: “seu bebê”. Detalhe: a mãe também segura uma plaquinha onde está inscrito: “sua mãe”.
       Mas a bagagem também contém recursos de aproximação (como os hormônios ocitocina e prolactina na mãe, e a predisposição dos sentidos que o bebê apresenta desde o nascimento) e preparam para o encontro – sempre temos na bagagem algo que nos assegure o conforto ou algo que nos aqueça, ou ainda algo que nos refresque.
       É nesse encontro repleto de surpresas, angústias, alegrias, dúvidas, ambivalência, enfim, que mãe e bebê vão se (re)conhecer. É um longo processo, delicado, sutil, desgastante, compensador...
       E é também deste encontro que poderão, ou não, ser reeditados sentimentos, vivências e histórias. Há uma oportunidade singular no puerpério e no pós-parto de autodesenvolvimento. A maternidade, e a paternidade, são, aliás, importantes ferramentas de aprendizagem e crescimento do ser humano.
       É nessa possibilidade de disponibilidade que a Psicologia Perinatal pode contribuir de forma determinante na saúde emocional da díade mãe-bebê, e no vínculo. O respeito ao tempo e ao ritmo possível de ambos, é a medida para a assistência ser benéfica e construtiva e delicada, como é a relação mãe-filho.
       Sou muito grata por esta oportunidade, agradeço também minhas colegas de curso, especialmente á Maria Fernanda, Flávia Parente e Taís, aos professores, e principalmente à Professora Vera Iaconelli que se propõe a dividir com outros colegas a sua bagagem, farta de conhecimento e sensibilidade. Agradeço também à Carolina Iaconelli por sua compreensão e dedicação. E também agradeço aos meus filhos e ao meu marido Jorge por terem aceitado a minha ausência e por terem se “automaternado”.
      Rosângele Monteiro Prado -  Psicóloga Perinatal


Trabalho apresentado para a conclusão do Curso de Formação em “Psicologia Perinatal”

do Instituto Gerar de Psicologia Perinatal sob coordenação da profª.  Vera Iaconelli   
São Paulo, 08 de novembro de 2009