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A primeira infância é o momento por excelência da constituição do ser humano. As primeiras relações estabelecidas na vida de um bebê são determinantes para o seu desenvolvimento.
A primeira infância
As brincadeiras são fundamentais para o processo do desenvolvimento infantil pois o brincar não é simplesmente um passatempo, mas a forma da criança descobrir a si mesmo e conquistar o mundo à sua volta. A infância não é um momento “fácil”, muito pelo contrário! Este momento crucial na vida de todos é marcado por grandes sofrimentos. O aprendizado, a incorporação de regras, a descoberta de que o mundo não gira ao seu redor e a necessidade de adaptação ao mundo gera muita angústia. O brincar é o meio que a criança encontra para lidar com todas estas questões.
O brincar está presente desde quando o bebê ainda está dentro do útero materno, quando explora sensações de movimento e sons que é capaz de ouvir. Logo após o nascimento o bebê passa por uma fase em que não se distingue de sua mãe. Seu corpo unitário ainda não está formado mentalmente e portanto não existe para o bebê a distinção entre eu\outro. Nesta fase a mãe também precisa estar se sentindo “fundida” ao seu bebê para conseguir prover de maneira satisfatória o que ele necessita. Aos poucos o bebê percebe que não é onipotente e vai desenvolvendo a capacidade de sobreviver às mais variadas falhas do mundo externo (não ter o seio quando está com fome, não ter a coberta quando sente frio, acordar com ruídos, etc). Estas “falhas” são consideradas fundamentais para o desenvolvimento, pois a desilusão e a “falta” levam ao processo de humanização. A “falta” impulsiona o bebê a lidar de um modo diferente com o mundo, e é a base para a formação da comunicação e da expansão cultural na vida adulta.
O bebê começa aos poucos a interagir com o mundo à sua volta e a se comunicar com as pessoas. Primeiramente isto se dá através das expressões faciais, da brincadeira de atirar repetidamente objetos para fora do berço para depois serem devolvidos, da brincadeira de esconder o rosto, do brincar com os sons que são capazes de fazer com a boca, até chegar ao uso da linguagem oral.
No primeiro semestre de vida, o desenvolvimento do bebê tem como condição fundamental a presença constante de um adulto que sustente sua sobrevivência física, através da alimentação e cuidados, e também sua sobrevivência psíquica, através do afeto. Esse adulto deve atender às necessidades básicas do bebê e também oferecer seu rosto, seu colo e seu tom de voz a ele, de modo que ele possa vivenciar experiências de satisfação física e psíquica.
Nessa fase, o bebê ainda não desenvolveu a fala e mostra de diferentes formas que precisa de uma troca de fraldas, que está com cólicas, indisposto, com fome ou sono. O bebê, mais do que tudo, precisa de um adulto que reconheça, entenda e resolva suas necessidades. Nesse processo, o adulto vai aprendendo a decifrar os pedidos do bebê e dizendo para ele o que ele está sentindo e querendo. Esse ato de nomear para o bebê o que se passa com ele, vai constituindo um saber sobre o que achamos ser suas necessidades, levando-o a estabelecer uma demanda dirigida ao outro, o que é importante no desenvolvimento de todo ser humano.
Ao longo do segundo semestre de vida intensifica-se a busca do bebê por objetos do mundo que lhe despertam a curiosidade. Isso acontece principalmente através da estimulação externa, que vem dos adultos com os quais convive. Nesse momento, o bebê conquista as importantes habilidades de sentar, engatinhar e, posteriormente, andar. Cada uma destas aquisições possibilita que amplie sua percepção sensorial do mundo.
Nesse processo, novamente o adulto ajudará o bebê a entender as sensações que está experimentando. Essa ação do adulto de nomear para o bebê o que está acontecendo com ele e com o mundo a sua volta, acontece antes mesmo dele adquirir a habilidade de falar, inserindo-o aos poucos no mundo existente a sua volta.
Aos 2 anos, o bebê tem grande parte das habilidades motoras desenvolvidas. O mundo se torna diferente para alguém que pode se movimentar sozinho. Uma vez de pé o plano de visão muda e suas mãos se tornam livres para explorar objetos. É uma fase em que o bebê está sempre em movimento, pela necessidade de praticar e aperfeiçoar sua mais nova conquista. É também uma fase de experimentação e de grande curiosidade e é a partir da exploração dos objetos ao seu redor que ele apreende o significado das coisas. Está aprendendo a diferença dos objetos e suas combinações. Demonstra sinais de crescente independência, acompanhado por sentimento de maior segurança. Nesta fase, o desenvolvimento da força, do equilíbrio, da coordenação motora e da linguagem são aprimorados . O bebê apreendeu o significado da palavra “não” e começa a se opor às regras e aos limites.
A forma como o bebê irá se desenvolver está ligada não só as formas como os adultos se relacionam com ele, mas também à sua história familiar; quem são seus avós, seus pais, como ele foi concebido, se foi desejado ou não, como foi sua gestação, como foi seu parto, como foi recebido por sua família. Tudo isso faz parte da história desse bebê e não pode ser esquecido ou posto de lado.
Nos abrigos
Dentro dos abrigos, não há apenas um adulto cuidando de um bebê, mas sim muitos adultos cuidando de muitos bebês. O bebê que mora em um abrigo deve se adaptar rapidamente a esses muitos adultos e aos estímulos diferentes. Ele terá que se fazer entender por muitas pessoas em suas necessidades fisiológicas e afetivas.
Por esta razão, é importante que a equipe do abrigo possa oferecer um cuidado individualizado e organizar um plano de atndimento para cada criança atendida, criando um discurso único sobre cada bebê. A presença constante do adulto e uma rotina bem estabelecida são essenciais nesta fase.
No caso dos bebês com direitos violados, o cuidado com os laços afetivos que eles formam com os adultos por eles responsáveis torna-se ainda mais necessário, uma vez que eles sofreram, muito precocemente, situações de ruptura no convívio com seus familiares. É importante que a equipe do abrigo possa pensar este momento como uma forma de proteção essencial para o bebê ao invés de vitimizá-lo.
O trabalho com as histórias de vida dentro do abrigo é uma ferramenta que possibilita a criação de um espaço individual para cada criança dentro do coletivo que configura a situação de acolhimento. Neste sentido, é importante poder projetar o bebê como um adulto que um dia se pergunta de onde vem e para onde vai. Construir um álbum para ele com sua história de vida é uma forma de registrar sua história anterior à aquisição da linguagem, aquela que ele não lembrará se não houver pessoas ou registros que a contem.
Tudo aquilo que a equipe técnica sabe sobre sua história anterior ao abrigamento e tudo o que os educadores observam durante a passagem do bebê pelo abrigo se constitui como material precioso no fortalecimento dos vínculos que ele estabelecerá com seus novos adultos de referência ao deixar o abrigo. No caso de famílias adotantes ou substitutas, o álbum torna-se uma referência nos cuidados com o bebê e permite o conhecimento dessas etapas de sua vida!
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domingo, 30 de outubro de 2011
Primeira infância - Instituto Fazendo História
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
Reflexões sobre o Acolhimento de Crianças e Jovens
“Casa é o lugar onde mora o coração”
Como nos diz Pedro Strecht, a vida nem sempre é justa. As crianças não nascem iguais em direitos. Mas não podemos desistir de contrariar uma certa ordem das coisas, bater à porta dos corações e perguntar sem medo: pode-se entrar? Indignar-nos sempre que for preciso e lutar.
É isto que todas as pessoas que trabalham na área das crianças e jovens em risco, especificamente em instituições de acolhimento, fazem: lutar!
Lutar por (re) avivar a esperança no coração de cada criança, jovem ou adulto que acompanhamos...Porque a vida nem sempre é justa, porque os pais nem sempre são progenitores, porque os caminhos nem sempre são lineares....
A instituição, ou com prefiro chamar-lhe a “Casa de Acolhimento”, deve levar a cabo um conjunto de projectos e actividades com o objectivo de dar resposta às necessidades, promover o desenvolvimento pessoal, social, educacional e afectivo das crianças e jovens, permitindo a promoção de competências, o aumento da auto-estima e a segurança de ser amado pelo que se é, visando também possibilitar-lhes experiências positivas no presente, para que possam ter uma perspectiva de futuro; acreditar em si mesmas, para poder acreditar no “amanhã”...
Sabemos que o que deve estar sempre subjacente ao acolhimento são os afectos, “ O que temos entre mãos não é um caso nem um processo, é simples mas tão complexamente a vida de uma criança.
As crianças e os jovens acolhidas chegam-nos cheias de feridas e marcas, são vítimas de vicissitudes e circunstâncias geradoras de mal-estar, de ausências de afecto, de desinvestimento, de vazios internos e externos, estando ávidos de amor, ávidos de organização, ávidos de um lar onde habitar e pousar o seu cansaço porque, como nos diz Mia Couto “A casa é o lugar onde mora o coração”.
Nogueira (2005) considera que por se tratar de uma “casa” e pelo facto de que muitas crianças e jovens trazerem na sua bagagem uma história de vida marcada por experiências traumáticas, a preocupação e a responsabilidade com a qualidade da intervenção e da qualificação do acolhimento institucional deve ganhar uma proporção ainda maior. Assim, é necessário que os cuidadores, os responsáveis pelas crianças e jovens acolhidos, voltem os seus sentidos em direcção a eles, a fim de que possam compreender os seus gostos, interesses, capacidades e dificuldades como características pessoais que estruturam a sua personalidade e orientam o seu comportamento.
A Casa de acolhimento deve sempre intervir com base no respeito e numa efectiva valorização das suas crianças e jovens, uma vez que lhes deve ser proporcionado o afecto essencial para o desenvolvimento de uma boa auto-estima e de uma vinculação segura, assente numa boa estruturação psicológica e afectiva.
O nosso trabalho deve basear-se em Afectos e as equipas (técnicas e educativas), os educadores, os modelos destas crianças e jovens, devem constituir-se como figuras securizantes, disponíveis internamente para dar, estar, comunicar e comungar...
Em definitivo, não há uma receita ou um manual rígido de como bem proceder como uma criança e/ou jovem. Cada um deles tem uma história e emoções muito próprias, uma personalidade própria, sonhos muito próprios, muito seus. Por isso não deve haver receitas mas sim flexibilidade e criatividade.
No entanto, sabemos que a personalidade se desenvolve em sintonia com figuras contentoras e permanentes, modelos de referência que os ensinem e protejam no aqui e no agora, mas também que assegurem que esta protecção e amor esteja presente nas suas vidas SEMPRE e PARA SEMPRE. E, por isso, é importante ser céleres na definição do projecto de vida e, muitas vezes, radicais nas decisões que são tomadas, pois nem todos os pais são progenitores e porque as crianças não podem nem devem esperar eternamente por mudanças que nunca chegam. Tal como nos diz Winnicott: "Sem ter alguém dedicado especificamente às suas necessidades, a criança não consegue estabelecer uma relação eficiente com o mundo externo. Sem alguém para dar-lhe gratificações instintivas e satisfatórias, o bebé não consegue descobrir seu próprio corpo nem desenvolver uma personalidade integrada". ,
Partimos assim do princípio que a protecção das nossas crianças e jovens terá sempre de assentar em dois vectores: tempo e afectos. Em primeiro lugar, o tempo, que para as crianças e jovens acolhidos, não é, nem pode ser uma dimensão linear nem objectiva. O tempo tem de ser visto antes como uma dimensão relacional, sendo uma condição essencial na intervenção com crianças, uma vez que dele depende também o desenvolvimento e o evitamento de feridas profundas e vazios irreparáveis. Não podemos congelar o desenvolvimento psicológico de uma criança que precisa a cada segundo de ser amada e protegida para poder percepcionar o seu valor e a sua segurança, evitando o sentimento de desamparo e de não ser querida…
Em segundo lugar, os afectos, pois é nossa convicção, ao trabalhar com crianças e jovens que “não pertencer a ninguém é correr o risco de tornar-se ninguém”, daqui que os afectos sejam factores essenciais e vitais no desenvolvimento psicológico de qualquer ser humano, precisamos de pertencer para poder Ser…
Por isso as crianças e os jovens que são acolhidas precisam urgentemente de uma definição do seu futuro, e de pais ou modelos de referência que assegurem o seu desenvolvimento, sobretudo psicológico e emocional, pois, muitos deles são aquilo a que se chama de "maravilha ferida", ou seja, crianças e jovens, que apesar de todo o sofrimento, de toda a agressividade e das marcas do abandono e desamparo a que sempre estiveram sujeitas, são muito bonitos: vivos, espontâneos, sensatos, e intuitivos, valorizando aquilo que vale a pena valorizarem na vida: as pessoas, a esperança, e o futuro.
Pode ser lugar comum, mas parece-me que no nosso dia-a-dia com eles, devemos ser autênticos e estar completamente conscientes das nossas responsabilidades enquanto educadores, contentores, protectores das nossas crianças e jovens. Devemos estar atentos aos seus sinais, às suas estratégias tantas vezes mais eficazes do que aquelas que pensamos ser as “certas”, devemos ser verdadeiros ouvintes para compreender verdadeiramente e ser co-construtores de histórias para que a história das suas vidas se possa transformar. Que cada momento com cada criança, jovem ou adultos em dificuldades, em perigo ou em risco, seja uma oportunidade para entender os seus SOS, que por vezes apenas querem dizer “SE ME OUVIRES SALVAS-ME”.
Estas crianças e jovens, tantas vezes magoados e defraudados por aqueles que lhes deveriam assegurar tudo, o amor, os sonhos, a certeza de ser querido exactamente como são e pelo que são, têm o direito a ser amados, a confiar que não serão jamais abandonados. Estas crianças e jovens têm direito “a ter um colo onde se possam sentar, enroscar como numa concha e receber mimos, a acreditar que um adulto olha por eles e os ama sem condição prévia, a ter alegria suficiente para imaginar coisas boas antes de dormir e depois, a sonhar com elas, “têm o direito de não ficar sozinhos a chorar, têm direito a crescer felizes e a ter paz nos seus pensamentos e sentimentos”. Pedro Strecht; 1998 (in Crescer Vazio)
Sobretudo, temos como missão cuidar mas também dar um sopro de vida e estas crianças e jovens, fazer renascer a Esperança em si mesmo e no futuro, fazê-los acreditar nas pessoas, sem medo de ser abandonados ou desiludidos, quebrando ciclos de desânimo aprendido e dissipando o medo de perder. Em suma, através da relação, que deve ser sempre terapêutica e autentica, temos obrigação de ajudá-los e ensiná-los a estar vivos, pois “Estar vivo não supõe, só, um coração que bate (…).Estar vivo, num plano psíquico, exige, também, um conjunto de relações significativas que nos dão vida, pela diversidade das solicitações, pelas contradições que aclaram em nós, e pelas formas como nos movem e nos fazem crescer”Eduardo Sá, in Adolescentes somos nós.
FONTE: (Portugal) http://reflexoespsikologicas.blogspot.com/
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